Macacos são confinados e reproduzidos para alimentar comércio de animais

06/01/14 em Internacional   |  Nenhum comentário

O horror do sórdido comércio de macacos como animais domésticos nos subúrbios da Inglaterra: influenciados por famosos como Justin Bieber, esses animais viraram “mania”, mas por trás do “modismo” esconde-se uma chocante crueldade. As informações são do Daily Mail.

Nos fundos da casa, a geada congelou o gramado transformando o local num terreno de concreto e terra lamacenta.

De dentro de uma jaula, dois pequenos macacos perscrutam a paisagem desolada com a expressão perdida e entediada de seus olhos incrivelmente humanos.

As agradáveis e verdejantes matas de sua nativa América do Sul ficaram para trás e muito longe deles.

Esta é a vida que levam, trancafiados do lado de fora de uma casa, 24 horas por dia, em West Midlands, Inglaterra.

Os saguis, animais sociáveis, brincalhões, curiosos e inteligentes, estão privados de qualquer atividade e não há nem mesmo um brinquedo que possa distraí-los.

Dentro da casa, na cidade de Walsall, o filhote de quatro meses do casal de saguis está se saindo um pouco melhor. Pelo menos, ele é mantido aquecido.

Ele passa seus dias na sala de estar, enquanto os seus carcereiros, Keith e Sue Watkins, tentam “humanizá-lo”, preparando-o para ser vendido. Albert, que é como os comerciantes o chamam, tem permissão para sair da gaiola de vez em quando e tem alguns brinquedos de plástico com que brincar.

As refeições dão uma pequena trégua ao tédio. Ele geralmente recebe frutas e, de vez em quando, alguns salgadinhos industrializados para mordiscar e uma garrafa de suco artificial como “recompensa” pelo “aprendizado”.

A dieta está longe da nutrição natural dos saguis na selva, onde se alimentam da goma das árvores, frutas, flores, insetos, pequenos animais e até mesmo de caracóis e répteis.

Assim como Albert, milhares de macacos selvagens são comprados e vendidos na Grã- Bretanha, em consequência de um crescente modismo em manter esses primatas como animais domésticos.

Surpreendentemente, a criação e venda de pequenos macacos, como saguis, micos e macacos-esquilo são atividades legalizadas na Grã-Bretanha e nenhum tipo de licença é exigido para esse comércio imoral.

Por causa da falta de regulamentação, não se sabe quantos macacos são mantidos como animais domésticos no Reino Unido. Em 2009, estimava-se que esse número chegava a 7.500 símios. Hoje, a quantidade deve ser bem maior, devido ao aumento da popularidade desses animais causado, em parte, pelo cantor Justin Bieber que mantinha um deles como animal doméstico.

Os centros de resgate estão, atualmente, com uma superpopulação de macacos maltratados, doentes e desnutridos. Com progressivas denúncias de maus tratos sendo levadas aos tribunais, a gravidade da situação ficou em evidência, suscitando uma preocupação sobre a necessidade de rígida regulamentação desse comércio ou até mesmo de seu banimento, o que seria a única decisão eticamente correta e aceitável.

Na verdade, o governo ficou em alerta com essa questão e o Comitê para Assuntos Rurais, do Meio Ambiente e da Alimentação (Environment, Food and Rural Affairs Committee) deu início a uma investigação, no começo de dezembro, para avaliar a situação. Um relatório deverá ser divulgado durante este ano, mas enquanto isso, os criadores de macacos continuarão com seu comércio execrável.

As condições em que os pequenos símios são mantidos e o tipo de vida que são forçados a levar são chocantes e deploráveis. Albert, o pequeno bebê sagui, foi colocado à venda pelos Watkins através de um popular web site de anúncios classificados. Não é difícil, na Inglaterra, encontrar macacos à venda: é só digitar “comprar macaco” em qualquer ferramenta de pesquisa da internet, que dúzias de anúncios aparecerão.

A maioria desses anúncios são publicados por pessoas que criam macacos em suas próprias casas e os vendem pela internet, sem fazer qualquer tipo de pergunta ao comprador.

Esse comércio é como uma licença para imprimir dinheiro: uma fêmea de sagui vale, no mínimo, cerca de R$4.700,00 (1.200 libras esterlinas) e um macho pode chegar a aproximadamente R$3.100,00 (800 libras esterlinas).

Há um grande número de compradores. Animais exóticos estão se tornando cada vez mais “objetos de desejo” de muitas pessoas que querem animais domésticos raros e incomuns.

Assim, ao longo dos anos, macacos foram trazidos para o Reino Unido, após serem capturados em seu habitat na África, Ásia e América do Sul e as gerações seguintes foram criadas para gerar lucro.

O problema é que eles jamais serão animais domésticos. Nascidos para serem criaturas selvagens e livres, é difícil abraçá-los, afagá-los ou brincar com eles. Assim, passada a excitação da novidade, muitos dos tutores abandonam os macacos à própria sorte. Saguis vivem, em média, 20 anos e os macacos-prego (um dos pouquíssimos pequenos primatas cuja comercialização requer uma licença oficial) podem chegar a 50 anos de idade.

Essa é a dolorosa história de muitos macacos. Primatas, exatamente como nós, eles precisam da companhia de outros dos de sua espécie, estímulos constantes e alimentação correta para evitar que desenvolvam alterações físicas e psicológicas. Mas isso não lhes é oferecido em cativeiro, como na casa dos Watkins. O casal os mantém aprisionados, em seu quintal, quatro saguis adultos, sendo dois casais em gaiolas separadas e que são usados como matrizes para reprodução. É evidente que suas necessidades básicas não são observadas, como bem o demonstra a dieta do pequeno Albert.

“Ele gosta de batatas fritas”, disse Sue Watkins, a criadora de saguis. “Nós daremos água a ele, mas como recompensa ele ganha suco de frutas (industrializado)”.

Sem dúvida, essa alimentação é totalmente inadequada para um pequeno filhote que deveria ser amamentado por sua mãe durante o primeiro ano de vida. Mas a dieta do bebê não é a única perversidade cometida com os saguis.

Os comerciantes estavam tão desesperados para vender Albert, que aconselharam os jornalistas disfarçados de compradores a não adquirir dois macacos, apesar de especialistas afirmarem que eles precisam ser mantidos aos pares, no mínimo, pois são animais sociais.

“Se quiserem que ele seja um animal de estimação, ele deve ficar sozinho”, disse Keith, 59. “No momento em que colocarem outro macaco junto dele, não será mais um animal doméstico. Não importa que vocês passem o dia fora de casa, desde que o alimentem duas vezes nesse período”.

Os criadores disseram que adquiriram seu primeiro sagui em janeiro de 2012 e que agora já possuem dois casais para reprodução que vivem confinados do lado de fora da casa em gaiolas de 0,5m por 1,5m, com uma abertura para deixar o ar entrar.

Esses seres que vivem na natureza em locais de clima muito quente têm apenas a proximidade de um único aquecedor, suficiente tão somente para que não congelem, apesar do gelo que cobre o chão do quintal.

Os Watkins, que também criam cães da raça Staffordshire bull terriers, não se mostraram nem um pouco interessados em conhecer os potenciais compradores, suas condições de vida, capacidade para manter Albert, para onde seria levado ou o objetivo da compra. Eles não fizeram qualquer tipo de pergunta ao casal de jornalistas, apesar de eles terem deixado claro que não tinham a menor ideia de como lidar com os animais.

Keith disse apenas que “R$3.100,00 (800 libras esterlinas) era um bom preço”, tentando convencer o casal a comprar o macaco.

“Mesmo que Albert, por um acaso, tenha a sorte de conseguir um bom tutor, ainda assim seu futuro está comprometido e não parece nada bom”, diz Rachel Hevesi, diretora do santuário para primatas Wild Futures, localizado no condado de Cornwall.

Esse santuário é um dos abrigos de animais do Reino Unido especializados em lidar com as vítimas desse comércio e que já resgatou, nos últimos dois anos, mais de uma dezena de macacos que foram submetidos a este tratamento.

“Esse macaco não irá sobreviver”, disse Rachel. “Com a dieta que vem recebendo, não há esperança. É muito difícil reproduzir, em cativeiro, o que um sagui come na natureza. Esses símios têm dentição adaptada para que possam retirar a goma das árvores”.

“Pelo fato de os saguis serem muito pequenos, as pessoas pensam que é fácil cuidar deles, mas eles têm um modo de vida e de alimentação muito particulares e específicos. Mesmo em zoológicos, a batalha para mantê-los saudáveis é bastante árdua”.

“Albert foi separado de sua mãe muito cedo. Ele deveria ter sido amamentado até completar um ano de idade”.

“Ele também deveria ter ficado na companhia de sua mãe durante dois anos, para aprender como ser um macaco, caso contrário, estabelece-se um ciclo infernal de macacos criados por humanos para procriação e que rejeitarão seus filhotes que, por sua vez, só poderão ser criados por humanos”.

Wild Futures é um dos muitos santuários do Reino Unido que têm testemunhado o acentuado aumento de tutores pedindo que esses abrigos acolham seus “macacos domésticos”, por perceberem a impossibilidade de lidar com eles.

Em 2008, o centro de resgate Monkey World, situado no condado de Dorset, recebeu apenas quatro macacos, mas nos últimos 18 meses esse número subiu para 26.

Alison Cronin, diretora do Monkey World, desabafou: “Não estamos conseguindo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Estamos ficando abarrotados. É um pesadelo. São animais maltratados e negligenciados e estamos tentando remediar os danos que sofreram”. “Eu tenho uma lista de espera gigantesca de pessoas estressadas e angustiadas que foram ludibriadas”.

“Foi lhes dito que macacos eram ótimos animais domésticos, mas com o tempo, descobriram que, na realidade, eles podem ficar agressivos e desenvolver problemas mentais e físicos quando não são alimentados corretamente ou mantidos de forma adequada”. O governo britânico e as organizações de defesa animal têm motivos para se preocupar.

Nos anos de 2011 e 2012 a RSPCA (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals), maior organização de defesa animal do Reino Unido, processou cinco pessoas por maltratar pequenos primatas. Quando o acusado é considerado culpado, ele fica proibido, pelo resto da vida, de tutelar animais domésticos e de tê-los em sua companhia.

Dra. Ros Clubb, especialista em vida selvagem e ligada à RSPCA, declarou: “Além da alimentação totalmente inadequada, outra situação gravíssima é o fato dos macacos serem mantidos sozinhos em minúsculas gaiolas, sem nenhum tipo de estímulo”.

“Por causa disso, eles quase sempre desenvolvem problemas comportamentais. Podem também ser acometidos por diabetes e raquitismo, doença que provoca má formação óssea e fraturas”.

Da mesma forma que precisam de alimentação correta, macacos também necessitam viver em espaços amplos, cheios de galhos entre os quais possam se balançar e buscar seu alimento. Essas condições ideais, que caracterizam o ambiente natural onde eles vivem, não podem ser reproduzidas em cativeiro e nem se deve aprisioná-los em locais artificialmente construídos.

“O que acontece é, em grande parte, devido à ignorância”, diz Rachel Hevesi. “As pessoas não são deliberadamente cruéis, só não estão informadas ou não compreendem verdadeiramente a situação”.

“Algumas delas costumam dizer que os macacos comem o mesmo que elas e que, afinal, somos todos primatas”. Mas na maioria das vezes, os humanos não sabem nem qual a alimentação certa para eles mesmos. Frituras e doces, com certeza, não farão nada bem para os animais.

“Nós recebemos um macaco que parecia estar fisicamente bem quando chegou ao santuário, mas seus exames de sangue acusaram alto nível de colesterol”.

“Descobriu-se, posteriormente, que ele foi acostumado a comer carne assada com batatas e pavê cheio de creme feito de leite e ovos, como sobremesa”.

“Outro macaco, chamado Joey, viveu dentro de uma casa durante nove anos, em Londres, em uma gaiola do tamanho de um guarda-roupa e acabou adoecendo. Adquiriu displasia do quadril, ficando suas pernas fora de posição e as articulações mal formadas. Seu rosto também ficou deformado, já que o organismo era deficiente em cálcio, o que impediu o crescimento dos ossos que foram substituídos por uma cartilagem. O problema é que sabemos que existem muitos Joeys lá fora”.

Todos os santuários visitados pelos jornalistas investigativos querem, de maneira unânime, que o governo proíba definitivamente que macacos sejam mantidos como animais domésticos. É assim, também, que pensa Linda Wood, 44.

Linda tinha um macaco-prego, mas no começo de 2013 chegou à conclusão de que ele estaria muito melhor em um santuário. “Aos poucos, fui percebendo que macacos são animais selvagens e que não devem ser enjaulados”, disse ela. “Eles nunca serão felizes como animais domésticos”.

Linda, que é supervisora na área de hotelaria na Escócia, comprou, em 1998, dois macacos-prego irmãos, chamados Tam e Dodge. “Nós tínhamos outras criaturas exóticas, como cobras e escorpiões e meu marido pensou que macacos eram interessantes e inteligentes”, ela disse.

“Refletimos a respeito e concluímos que nossa casa tinha um jardim grande o suficiente para eles”.

“Os macacos tinham um recinto interno aquecido, especialmente construído para eles na garagem e um espaço externo adaptado de forma que pudessem fazer escaladas, onde também havia pneus para brincar e troncos de madeira. Eles não ficavam confinados numa jaula pequena em uma sala de estar. Sua dieta era boa e consistia de frutas, verduras, ovos e carunchos”.

“Mas em meados de 2006, eles começaram a brigar entre si. Eles foram castrados, mas isso não impediu que as agressões continuassem e no final daquele ano eles brigaram de forma muito violenta e Tam acabou matando Dodge. Não dá para dizer o quanto isso foi doloroso”.

“Depois do ocorrido, Tam tornou-se mais amigável mas, recentemente, ele começou a andar de um lado para o outro em sua jaula. Quando o levamos para dentro de casa, percebemos que as almofadas de seus pés estavam feridas. Descobrimos, mais tarde, que ele tinha ulcerações causadas pelo frio do clima escocês”.

“Já sabíamos que isso não podia continuar e entramos em contato com o Wild Futures. Quando vi de que maneira os macacos vivem, balançando-se entre as árvores na companhia de seus semelhantes, eu finalmente entendi o que Tam realmente precisava”.

“Foi uma decisão dificílima, a de me separar dele. Quando o deixei no santuário, eu chorava tanto, que era incapaz de falar”.

“Mas vendo-o agora, sei que tomei a decisão certa. Apesar de termos feito o melhor possível, ainda assim não fomos justos com ele. Pensávamos, na época, que estávamos dando a ele uma vida adequada”.

“O lugar de um macaco não é a sala de estar ou o jardim de alguém. Eles precisam de estímulo e atividade. Não se pode simplesmente ignorá-los ou achar que ficarão bem trancafiados numa jaula sozinhos. Eu entendo isso agora, mas naquele tempo eu não tinha essa consciência”.

Lamentavelmente, muitas pessoas ainda cometem o engano de achar que é fácil e correto manter um macaco em suas casas. Pelo bem desses animais, esperamos que o governo britânico aja rapidamente para que o sofrimento deles tenha fim.

Fonte: Anda

 

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